Artesanato – Qual o preço da sua História de vida?

Artesanato, cultura e o seu valor agregado:

Quando você adquire uma peça artesanal, seja de uma artesão na rua, numa feira, sites ou lojas feito a maorevendedoras, você não está apenas adquirindo mais um produto ou bem. Porque?

Quais os valores agregados de um trabalho artesanal?

É óbvio que cada peça de artesanato individualmente possua diferentes valores agregados. Com certeza, todos tem suas particularidades pois são resultado de mãos de pessoas, frutos da criatividade da mente de alguém, ou de um grupo de pessoas e, consequentemente, carrega toda a bagagem cultural e trajetória pessoal do artista.

A indústria muitas vezes utiliza das mãos de pessoas para confeccionar seus produtos, e porque não é caracterizado como artesanal?

artesanato-tear

fonte: http://textileindustry.ning.com/

O artesanato se caracteriza como tal por não utilizar de máquinas de grande produção nem especialização de mão-de-obra. Ou seja, o artesão geralmente é o criador das peças e ele mesmo prepara sua matéria-prima e a transforma com suas próprias ferramentas e oficina. Na indústria o que existe é um processo de montagem, onde os trabalhadores realizam tarefas específicas e repetitivas. Daí o fato de não se caracterizar como artesanato.

Cada peça artesanal conta uma história:

Quando vou produzir uma peça, por exemplo, como escolho o material básico para sua confecção, e onde o encontro?

Cada pedra, bolinha, pedaço de fio usado tem uma procedência. Cada ferramenta e técnica utilizada tem uma origem. Meu artesanato é mais do que uma peça final. Ela tem um início, um meio, e um fim.

Desde o aprendizado da técnica, ao seu desenvolvimento e evolução, todo o processo conta uma história. Nosso sistema educacional tradicional nos leva a crer, erroneamente, que basta você se matricular em um curso técnico, fazer uma faculdade para adquirir uma profissão. O artesão pode sim fazer cursos para seu aperfeiçoamento, mas geralmente, o artesanato é passado de boca em boca, de mestres à aprendizes, na cultura popular e seu desenvolvimento e aperfeiçoamento só é possível com o tempo, a experiência individual.

Você aprende uma técnica, o macramê, por exemplo. São conjuntos de alguns tipos de nós combinados. Você aprende esses nós, e como fazer sua união. No começo, sem dominar a tensão utilizada pelas mãos ao apertar esses nós, os trabalhos tendem a ser imperfeitos, sem constância na sua textura e acabamento final. Para aprimorar o trabalho, apenas o tempo e muita prática são necessários. E o diferencial entre um trabalho e outro está na criação de cada artista. Como escolhe seu material, como combina os nós e como finaliza sua peça.

artesanato-macrame

Minha história com o artesanato, por exemplo, começou bem cedo, ainda menina sentia inclinações à atividades manuais. Crochê, foi a minha primeira técnica, ensinada pela minha bisavó e mãe. Minha bisa era incrível nesse ofício e eu me encantava com suas peças, toalhinhas, colchas e um lindo vestido todo tecido em crochê feito para o baile de formatura de minha mãe. Logo cedo me senti inclinada e ficava ao seu lado observando como ela fazia e mais tarde pegando eu mesma a agulha e a linha para começar uma trajetória que iria traçar o meu futuro. Depois de alguns anos conheci o arame e os alicates, em uma feirinha hippie no calçadão de uma praia onde fui passar o Ano Novo com a família, lá pelos meus 14 anos. Me encantei com a história por trás daquele trabalho, me encantei com a história de cada artesão, com o fato de ter o mundo inteiro como escritório, a simplicidade como estilo de vida e a liberdade de ser o que se é. Foi onde dobrei meus primeiros pedaços de arame e onde se iniciou uma grande paixão. A partir daí já comecei a adquirir algumas ferramentas e materiais e apenas observando outros trabalhos fui aprendendo a fazer por mim mesma. A princípio me deparei com o primeiro obstáculo, pois fazer era muito prazeroso, mas eu teria que vender também. Demorei uns 2 anos pra expôr por primeira vez minhas peças e efetuar as primeiras vendas. E já quando cheguei no último ano da escola, a vontade de viajar e desbravar o mundo foi mais forte que a pressão da sociedade para fazer uma faculdade e “ser alguém na vida”. Peguei minhas ferramentas, algum material, algumas peças de roupa, um saco de dormir e parti pra estrada. Realmente me matriculei na “faculdade da vida” que não te dá diploma para pendurar na parede, nem confere títulos importantes, mas agrega infinitas matérias, conhecimentos e aprendizados impossíveis de serem adquiridos em outro lugar, que não seja a estrada da vida… Desde auto-confiança, sobrevivência, ofícios, respeito, humildade, coisas que não se ensinam na faculdade.

artesanato-estradaFoi na estrada, passando por várias cidades pelo mundo afora, conhecendo artesão e diferentes técnicas onde tracei o percurso do meu trabalho como ele é hoje, e depois de quase 20 anos posso afirmar que essa trajetória não terminou, pois sei que vou continuar criando e aprendendo para sempre, pois não existe a perfeição. E viajar, conhecendo culturas das mais diferentes possíveis, em cada pedacinho do nosso tão rico planeta sempre será a prioridade para aperfeiçoamento e evolução do meu trabalho. Além de ser imprescindível para conseguir a matéria-prima que utilizo, que é a principal fonte de inspiração para criar minhas peças.

Concluindo o tema principal deste post, sem me alongar tanto em minhas histórias pessoais, quando você adquire uma peça artesanal, você adquire uma história de vida e não um produto. Daí a grande dificuldade dos artesãos em definir um preço ao seu trabalho, pelo tamanho valor agregado à ele. Você fomenta a criatividade, a evolução pessoal de um artista, ou um grupo de artistas populares e reforça nossa cultura como seres humanos, artesãos desde sempre. Não somos um produto comercial, somos acima de tudo, cultura.

artesanato-acre

foto: http://www.agencia.ac.gov.br/noticias/

artesanato-india

foto: www.thehindu.com

artesanato-laos

foto: http://nomadicsamuel.com/

artesanato-cuiaba

foto: Silvio Esgalha

artesanato-marajoara

foto: http://www.hak.com.br/

Leitura recomendada:

” O artesanato, antes de tudo é o testemunho insofismável do complexo homem/natureza. E é por meio da cultura material que o domínio da técnica e do tipo de objeto estarão dizendo sobre o espaço de sua feitura, ora pelos aspectos físicos, ora pela própria ideologia da cultura.” – Arte & Artesanato – ufmg

 

” Dentro da caixa de ferramentas do seu falecido pai, o Mestre Espedito Seleiro encontrou o molde de uma sandália com sola retangular, usada por Lampião para deixar pegadas que confundiam a polícia. O episódio marcou a trajetória do artesão cearense, que inventou um novo estilo ao reunir de modo original o universo dos vaqueiros e a estética do cangaço.” – A Sandália de Lampião- TvBrasil

 

“A peça artesanal é sempre única, mesmo que seja repetida à exaustão. Além disso, permite a personalização, mais difícil e ultimamente tão buscada pelo produto industrializado. Acredito que as pessoas estão em busca de suas raízes, do sentimento de pertencimento, de se sentirem únicas e não massa.” – Redescobrindo o artesanato no Brasil – Tendere

 

” O coletivo Beleza da Margem é uma linha de frente na resistência e afirmação da identidade cultural do “maluco de estrada”, nome pelo qual se reconhecem os artesãos conhecidos no senso comum como “hippies”. Voltado à pesquisa e registro sobre a reconfiguração do movimento hippie no Brasil, é um coletivo autônomo e composto na sua maioria pelos próprios artesãos. Nos últimos 6 anos, o coletivo vem desenvolvendo um inventário audiovisual sobre esta expressão cultural ainda não visualizada e ações políticas pela livre manifestação artística no espaço público. ” – Coletivo Beleza da Margem

Artesã, mãe, macrameira, viajante do espaço e tempo. Amante da natureza, da arte e da música. Acredita que um mundo melhor é possível, com consciência, permacultura e muito amor.

Deixe uma resposta

Your email address will not be published. Required fields are marked *

Copyright ©2015 Kaviah - CNPJ: 11.864.491/0001-35